Produzir audiovisual com o celular: acesso à tecnologia é suficiente?
Por IPCOM
Gravar uma entrevista, editar um vídeo, inserir legendas e publicar o resultado nas redes sociais são atividades que durante muito tempo dependeram de diferentes equipamentos e estruturas de produção. Hoje, elas podem ser realizadas em um único aparelho que boa parte dos brasileiros já carrega no bolso.
Em 2025, o telefone celular estava presente em 97,4% dos domicílios brasileiros, segundo a PNAD Contínua TIC, do IBGE. Entre as pessoas que utilizam a internet, a presença do aparelho é ainda mais evidente: dados da TIC Domicílios 2025, do Cetic.br|NIC.br, mostram que 99% acessam a rede pelo celular, enquanto 35% utilizam computador. Para 32% dos usuários, o telefone é o único dispositivo utilizado para acessar a internet.
A popularização dos smartphones reduziu uma barreira importante para quem quer produzir conteúdo audiovisual. Mas ter uma câmera disponível é suficiente para saber o que fazer com ela?
Uma câmera que já está no bolso
Durante muito tempo, começar a produzir audiovisual significava ter acesso a câmeras, equipamentos de captação de áudio, computadores e programas de edição. Parte dessa estrutura ainda é necessária em produções profissionais de maior complexidade, mas deixou de ser condição para uma primeira experiência com a linguagem audiovisual.
Um smartphone reúne câmera, microfone, acesso à internet e aplicativos capazes de realizar diferentes etapas da produção. No mesmo aparelho, é possível pesquisar um assunto, escrever um roteiro, gravar imagens, editar, legendar e publicar o resultado.
Essa possibilidade ganha ainda mais importância quando se observa como o acesso à tecnologia acontece no Brasil. Segundo a TIC Domicílios 2025, apenas 35% dos usuários de internet acessam a rede por computador, diante dos 99% que utilizam o celular.
Isso faz do smartphone uma ferramenta especialmente relevante para experiências de formação audiovisual. Trabalhar com um equipamento que já faz parte da rotina de muitas pessoas permite começar a produzir sem depender, necessariamente, de uma estrutura profissional.
Mas reduzir a barreira de entrada não significa eliminar a necessidade de aprender.
Do equipamento à linguagem
Um celular atual consegue tomar automaticamente diversas decisões técnicas. Ajusta foco e exposição, estabiliza imagens e utiliza processamento digital para melhorar fotos, vídeos e áudios. Aplicativos de edição também tornaram tarefas antes restritas a programas especializados muito mais acessíveis.
Ainda assim, nenhuma dessas facilidades decide qual história merece ser contada.
Produzir um vídeo envolve pesquisar, selecionar informações, pensar no público, construir uma narrativa, escolher enquadramentos, cuidar da captação do áudio e decidir quais imagens ajudam a contar aquela história. Na edição, entram outras escolhas: o que deve permanecer, o que pode ser retirado, qual ritmo funciona e como combinar imagem, som, texto e outros elementos.
A tecnologia diminuiu a distância entre ter uma ideia e conseguir registrá-la. A distância entre registrar imagens e construir uma narrativa audiovisual continua envolvendo conhecimento, prática e repertório.
Por isso, aprender audiovisual com um celular não deveria significar apenas aprender onde ficam os recursos de determinado aplicativo. Também envolve entender por que fazer determinadas escolhas e como utilizar as ferramentas disponíveis para comunicar uma ideia.
Produzir e consumir na mesma tela
O smartphone mudou quem pode produzir e também transformou a maneira como conteúdos audiovisuais chegam ao público.
O Digital News Report 2025, produzido pelo Reuters Institute for the Study of Journalism, da Universidade de Oxford, aponta uma migração contínua do consumo de informação para redes sociais e plataformas de vídeo em um ambiente cada vez mais orientado pelo smartphone. Considerando os mercados analisados pelo estudo, o consumo semanal de notícias em vídeo nas redes sociais passou de 52% em 2020 para 65% em 2025. Quando considerados diferentes formatos e plataformas, três quartos dos entrevistados disseram consumir notícias em vídeo semanalmente.
Essa transformação influencia também a linguagem. Vídeos verticais, conteúdos mais curtos, apresentação direta para a câmera e produções pensadas para telas pequenas ganharam espaço junto com plataformas como Instagram, TikTok e YouTube.
Produzir com o celular, portanto, não precisa significar tentar reproduzir exatamente aquilo que seria feito com uma câmera profissional. A pergunta pode ser outra: qual linguagem funciona para a história, o público e o meio em que aquele conteúdo será visto?
Acesso não significa igualdade de condições
A presença dos smartphones também não significa que as condições para produzir sejam iguais para todos.
Os próprios dados sobre acesso digital mostram essa diferença. A TIC Domicílios 2025 identificou que 32% dos usuários brasileiros de internet acessavam a rede exclusivamente pelo celular. O computador, por outro lado, está distribuído de maneira muito mais desigual entre diferentes grupos socioeconômicos.
Há ainda limitações relacionadas à qualidade da conexão e aos planos de dados. Entre usuários de internet pelo celular de 16 a 24 anos, 46% relataram redução da velocidade depois de consumir o pacote contratado e 43% disseram ter precisado colocar créditos ou contratar um pacote adicional.
Essas diferenças importam para a produção audiovisual. Gravar ocupa espaço de armazenamento, editar exige capacidade de processamento e publicar arquivos de vídeo demanda conexão e dados. Aplicativos mais recentes também podem não funcionar da mesma maneira em aparelhos antigos.
Por isso, falar em uma completa “democratização do audiovisual” exige cautela. O smartphone ampliou enormemente o acesso às ferramentas de produção, mas acesso ao equipamento não significa igualdade de condições para utilizá-lo.
Quando acesso encontra formação
É justamente nessa distância entre ter a ferramenta e saber utilizá-la que a formação audiovisual pode fazer diferença.
Uma experiência formativa pode partir de recursos acessíveis para trabalhar conhecimentos que continuam úteis mesmo quando aplicativos e plataformas mudam: pesquisa, roteiro, enquadramento, entrevista, captação de áudio, narrativa, edição e leitura crítica dos conteúdos.
Essa lógica está presente no Curso de Jovens Influenciadores Digitais Ambientais, realizado pelo IPCOM em parceria com a Estação Itimirim, em Iguape (SP). Ao longo da formação, os participantes entram em contato com diferentes etapas da produção de conteúdo, da pesquisa e elaboração de pautas e roteiros à gravação e edição de vídeos.
Em uma das aulas práticas, por exemplo, a editora de vídeo Mayara Cardone trabalhou com os participantes a edição diretamente em uma ferramenta disponível para celular. O objetivo não se restringiu ao domínio do aplicativo: a atividade permitiu experimentar na prática decisões relacionadas a cortes, organização das imagens, ritmo e construção do vídeo.
Usar ferramentas acessíveis nesse tipo de formação tem ainda uma vantagem importante. O aprendizado não precisa ficar restrito ao espaço e aos equipamentos do curso. Os participantes podem continuar experimentando, gravando e editando com recursos aos quais já têm acesso em seu cotidiano.
O melhor equipamento é aquele que permite continuar produzindo
O avanço tecnológico tornou possível realizar com um telefone tarefas que, há alguns anos, exigiriam vários equipamentos. Isso abriu novas possibilidades para produção independente, educação, comunicação comunitária, pequenos negócios e criação de conteúdo.
Não tornou, porém, o conhecimento audiovisual dispensável.
Quanto mais simples se torna apertar o botão de gravar, mais importante pode ser compreender o que gravar, por que gravar e como transformar aquelas imagens em uma história que faça sentido para alguém.
Em projetos de formação, essa combinação entre acesso e conhecimento pode ser especialmente potente. O celular reduz a barreira para começar; pesquisa, repertório, técnica e prática ampliam aquilo que cada pessoa consegue fazer com ele.
Uma das principais transformações trazidas pelo smartphone para o audiovisual foi permitir que muito mais pessoas tenham um ponto de partida para experimentar a linguagem, desenvolver habilidades e continuar produzindo.